terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Quê Realmente Importa



Stephen Witmer


A maioria das pessoas viveu em 2016 para agradar os outros. Nós desperdiçamos muito de nosso intelecto, energia e paixão correndo atrás do elogio de outras pessoas. O fruto amargo que colhemos foi o orgulho ao sermos bem-sucedidos, o desespero ao falharmos e a inveja ao sermos superados por outras pessoas.

Nós sabemos que não queremos viver desta maneira em 2017, mas nos sentimos presos e incertos de como poderemos vencer esta inclinação egoísta e superficial do nosso coração.

Richard Baxter pode nos ajudar. Baxter foi um pastor e autor puritano que escreveu mais de 140 livros durante sua vida. O Diretório Cristão, de sua autoria, contém mais de um milhão de palavras.

Cerca de cem palavras desta obra têm permanecido em minha mente por vários anos, me desafiando a rejeitar a superficialidade de meu próprio coração e a mergulhar fundo naquilo que realmente importa. Baxter escreve com o linguajar do século XVII, sendo assim, “judiciosamente” significa “acertadamente,” e “liberal” significa “generoso”. As palavras podem parecer antiquadas, mas o significado é extremamente relevante:

Estude primeiramente para ser o que você (judiciosamente) deseja aparentar. Deseje mil vezes ser mais santo, do que parecer ser santo; e deseje ser liberal, mais do que você deseja que as pessoas pensem que você é liberal; e deseje ser inculpável de qualquer pecado secreto ou deliberado, mais do que você deseja ser visto como inocente. Quando você sentir o desejo de ser considerado bom, que isto o faça pensar que é bem mais necessário e desejável que você seja realmente bom. Ser santo é ser um herdeiro dos céus: sua salvação é subsequente. Mas parecer santo não te produzirá muito lucro. (Diretório Cristão, Parte 1, Capítulo 4, parte 3)

Aparência e Realidade

As palavras de Baxter expõem a superficialidade de minha alma. Com bastante frequência, eu prefiro mais a aparência a realidade. Eu já me importei mais com o que os outros viram do que com o que eu sou.

David Brooks, em seu comovente e importante livro O Caminho para o Caráter, faz a distinção entre as virtudes de currículo (as habilidades que contribuem para o sucesso exterior) e as virtudes de elogio fúnebre (aquelas que se encontram no âmago de nosso ser). Ele faz a seguinte confissão:

A maioria das pessoas diria que as virtudes de elogio fúnebre são mais importantes do que as virtudes de currículo, mas eu confesso que por grandes períodos em minha vida eu fui consumido pelo pensamento das virtudes de currículo mais do que as de elogio fúnebre... A maioria das pessoas tem estratégias mais bem definidas de como obter o sucesso na carreira do que de como desenvolver um caráter profundo. (tradução livre)

O conselho de Baxter é um espelho que reflete nossa superficialidade. É um estímulo, nos incitando a buscarmos a profundidade. “Estude primeiramente para ser o que você (judiciosamente) deseja aparentar.” A palavra judiciosamente é uma ressalva. Baxter não recomenda que nos esforcemos para alcançar tudo aquilo que desejamos aparentar, mas aquilo que com sabedoria desejamos aparentar. O desejo de parecer rico aos olhos dos outros não deveria me motivar a correr atrás de riqueza, ao contrário, deveria me motivar a arrepender-me. Porém, e o meu desejo de parecer misericordioso, bondoso, sábio, justo e generoso?

Que Isto o Faça Pensar

O motivo que as palavras de Baxter me ajudaram e encorajaram (além de me convencerem do pecado) é a seguinte descoberta: meu desejo de aparentar algo pode servir como um trampolim para uma aspiração muito mais importante de ser. “Quando você sentir o desejo de ser considerado bom, que isto o faça pensar que é bem mais necessário e desejável que você seja realmente bom.”

Que isto o faça pensar... Você sente a necessidade de contar a um amigo que você está lendo As Institutas de Calvino? Que isto seja um lembrete para que você estude esta obra com intensidade e beneficie sua alma imensamente mais! O que é mais benéfico: que os outros pensem que eu leia obras profundas ou que eu seja uma pessoa que realmente lê obras profundas? O que me prepara melhor para o céu: o número de repostagens de minhas frases sobre Cristo ou a visão renovada que Ele me concede de Sua glória?

A realidade é infinitamente mais preciosa do que a aparência, e Baxter insiste para permitirmos que nosso desejo pela aparência de algo bom nos lembre do incomparável valor da realidade que ela representa. Que isto o faça pensar... Baxter nos incita a pensar na vaidade e brevidade dos elogios dos outros, e a pensar na alegria concreta de um bom caráter e de um futuro seguro no céu.

O Quê Realmente Importa

Se seu coração está inclinado à reputação mais do que à realidade, inclinado ao aplauso mais do que ao conteúdo, o livro Memórias de um Pastor Comum,  do autor D.A. Carson, pode ser o livro mais importante que você lerá em 2017. É a história do pai dele, Tom Carson, um pastor canadense do século XX, sem fama alguma, que ministrou humildemente por quase seis décadas.

Poucos conheciam seu nome, mas Tom Carson era um leitor voraz, que ministrou profundamente, cuidou de sua esposa, pastoreou seus filhos, estudou as línguas originais da Bíblia e memorizou a Palavra de Deus. Mais importante, ele teve uma experiência vibrante e profunda com Deus e com o evangelho até o dia de sua morte. Ele viveu para o que era realmente importante, conheceu uma alegria real e robusta em meio ao sofrimento e agora está no céu. Em vista disso, quem se importa se ele escreveu um livro ou tornou-se um conferencista de renome?

Baxter nos adverte: “Nossos corações são naturalmente tão egoístas e enganosos que precisamos observá-los cuidadosamente para não ocuparmos intencionalmente o centro das atenções, enquanto apenas aparentamos estar buscando a Deus.” Nós estamos apenas aparentando ou buscando realmente a Deus? Isto será uma batalha. Mas entremos nesta batalha em 2017 com um desejo intenso de glorificar a Deus e buscar aquilo que realmente importa.


©2017 Desiring God Foundation. 
www.desiringGod.org (website em inglês com alguns recursos em português).
http://www.desiringgod.org/articles/what-really-matters-in-2017 (texto original em inglês).

Traduzido com permissão.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Tesouros na Terra


John Piper


A essência da adoração é valorizar Jesus acima de todas as coisas. As formas exteriores de adoração são atos que mostram o quanto valorizamos Deus. Portanto, devemos adorar a Deus com toda nossa vida, pois Ele disse que, seja comendo ou bebendo ou fazendo qualquer outra coisa, devemos agir como se estivéssemos expressando o quanto é preciosa a glória de Deus para nós (1 Cor. 10:31).

Dinheiro e bens são uma grande parte da vida, e portanto Deus tem a intenção de que sejam grande parte da adoração. Então, a maneira que adoramos com nosso dinheiro e bens deve ser o de obtê-los, usá-los e perdê-los de uma maneira que mostre o quanto valorizamos Jesus, e não o dinheiro.

Lucas 12:33-34 nos dá um modelo de como podemos adorar com nosso dinheiro (e podemos tirar conclusões de como usar nosso dinheiro em adoração durante o culto público a Deus, como veremos abaixo). "Vendam o que têm e dêem esmolas. Façam para vocês bolsas que não se gastem com o tempo, um tesouro nos céus que não se acabe, onde ladrão algum chega perto e nenhuma traça destrói. Pois onde estiver o seu tesouro, ali também estará o seu coração" (NVI). Observe três coisas deste importante texto sobre dinheiro:

Primeiro, adotar a postura de ter Jesus como nosso grande Tesouro nos impulsiona fortemente a viver uma vida de simplicidade ao invés de acumularmos. Considere por um momento as palavras "vendam o que têm" no versículo 33. Para quem Jesus está falando estas palavras? O versículo 22 que antecede estas palavras nos dá a resposta: "seus discípulos". Estas pessoas não eram, na maioria, ricos. Eles não tinham muitos bens. Mas Jesus ainda assim diz: "Vendam o que têm." Ele não diz quantos bens eles devem vender.

Para o jovem rico em Lucas 18:22 Jesus diz, "Venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro nos céus. Depois venha e siga-me" (NVI). Neste caso, Jesus orienta o homem a vender todos os seus bens.

Quando Zaqueu se encontrou com Jesus, ele disse, "Olha, Senhor! Estou dando a metade dos meus bens aos pobres; e se de alguém extorqui alguma coisa, devolverei quatro vezes mais” (Lucas 19:8 NVI). Então, Zaqueu doou 50% de seus bens.

Atos 4:36-37 diz, "Barnabé... vendeu um campo que possuía, trouxe o dinheiro e o colocou aos pés dos apóstolos" (NVI). Barnabé vendeu um campo, no mínimo.

Então, a bíblia não nos diz quantos bens devemos vender. Mas por que a bíblia diz para vendermos bens? Dar esmolas - usar seu dinheiro para demonstrar amor por aqueles desprovidos das coisas básicas da vida e desprovidos do evangelho (necessário para vida eterna) - é tão importante que se você não tiver dinheiro vivo para dar, você deve vender algum bem que o possibilite doar.

Vamos analisar o contexto. Os discípulos não eram ricos cujo dinheiro estava todo investido em ações da bolsa de valores ou no mercado imobiliário. Na realidade, a maioria das pessoas nesta categoria têm uma quantia considerável em poupança. Mas Jesus não disse, "Tire um pouco da sua poupança e dê esmolas." Ele disse: "Vendam o que têm e dêem esmolas." Por quê? A conclusão mais simples é que estas pessoas viviam perto o suficiente de seu limite financeiro e não possuíam dinheiro vivo para doar, por isso tinham que vender algo para que pudessem ter dinheiro para doar. E Jesus queria que Seu povo tivesse um estilo de vida simplificado, e não de acumulação de bens.

Então, qual é a conclusão? O primeiro ponto é que há um poderoso impulso na vida cristã no sentido da simplicidade ao invés da acumulação. Este impulso é resultado de valorizarmos Deus como Pastor, Pai e Rei muito mais do que valorizamos nossos bens.

E este impulso é forte por dois motivos. Primeiro, porque Jesus disse: "Como é difícil aos ricos entrar no Reino de Deus!” [literalmente: aqueles que possuem bens] (Lucas 18:24 NVI). Em Lucas 8:14 Jesus diz que as riquezas sufocam a Palavra de Deus. Mas nós desejamos entrar no Reino muito mais do que nós desejamos bens. E nós não queremos que o evangelho seja sufocado em nossas vidas.

A outra razão é que nós queremos que a preciosidade de Deus seja manifesta ao mundo. E Jesus nos diz aqui que vender bens e dar esmolas é uma forma de demonstrarmos o quanto Deus é precioso como Pastor, Pai e Rei.

Então a primeira aplicação que tiramos do texto em Lucas 12 é que confiarmos em Deus como Pastor, Pai e Rei nos impulsiona fortemente na direção de uma vida de simplicidade ao invés de acumulação de bens. E isto faz com que nossa adoração brote do mais íntimo do coração em forma de ações visíveis para a glória de Deus.

Mas há um segundo ponto que devemos olhar no versículo 33: o propósito do dinheiro é maximizar nosso tesouro no céu, e não na terra. "Vendam o que têm e dêem esmolas. Façam para vocês bolsas que não se gastem com o tempo, um tesouro nos céus que não se acabe, onde ladrão algum chega perto e nenhuma traça destrói” (NVI). Qual é a relação entre vendermos nossos bens para suprirmos as necessidades dos outros (na primeira parte do versículo) e acumularmos tesouros nos céus (no final do versículo)?

A relação parece ser a seguinte: A maneira que podemos fazer bolsas que não se desgastam, bem como a maneira que podemos acumular tesouro inextinguível nos céus, é através da venda de bens com o propósito de suprirmos as necessidades alheias. Em outras palavras, simplificar na terra por amor ao próximo maximiza sua alegria nos céus.

Não deixe de perceber o quanto é radical este estilo de vida. É a maneira como Jesus pensa e fala o tempo todo. Ter uma mentalidade voltada para a eternidade faz uma grande diferença na maneira como demonstramos amor radical neste mundo. As pessoas que acreditam fortemente que tesouros nos céus são os que realmente importam, e não em uma grande acumulação de dinheiro nesta vida, são as pessoas que irão constantemente sonhar com maneiras de simplificar e servir, simplificar e servir, simplificar e servir. Eles irão doar, doar e doar. E evidentemente, eles irão trabalhar, trabalhar e trabalhar, como diz Paulo em Efésios 4:28, “para que tenham o que repartir com quem estiver em necessidade”.

A relação com a adoração, na vida e aos domingos, é esta: Jesus nos ordena a acumularmos tesouros nos céus, o que significa maximizar nossa alegria em Deus. Ele diz que a maneira de fazermos isto é vendendo e simplificando por amor ao próximo. Então, Ele encoraja simplicidade e serviço devido ao nosso desejo de maximizar nossa alegria em Deus, o que significa que todo nosso uso do dinheiro se transforma em uma manifestação de como nós nos deleitamos em Deus acima de dinheiro e bens. Isto é adoração.

Mas há um terceiro e último ponto a discutirmos em Lucas 12: seu coração se aproxima das coisas que você aprecia, e Deus quer que você se aproxime Dele. "Pois onde estiver o seu tesouro, ali também estará o seu coração" (v. 34). Esta é a razão pela qual devemos buscar tesouros inextinguíveis nos céus. Se seu tesouro estiver no céu, que é onde Deus está, então, seu coração também estará ali.

O que realmente quer dizer este versículo aparentemente simples? A palavra tesouro significa "objeto apreciado". E a palavra coração é o "órgão que o aprecia". Então leia este versículo desta maneira: "Onde está o objeto que você aprecia, ali estará o órgão que o aprecia." Se você aprecia Deus no céu, seu coração estará com Deus no céu. Você estará com Deus. Mas se o objeto que você aprecia é dinheiro e bens neste mundo, então o seu coração estará no mundo. Você estará no mundo, separado de Deus.

Isto é o que Jesus quis dizer em Lucas 16:13 quando Ele disse: "Nenhum servo pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará outro, ou se dedicará a um e desprezará outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (NVI). Servir às riquezas é apreciar o dinheiro e correr atrás de todos os benefícios que o dinheiro pode conceder. Mas servir ao Senhor significa apreciar o Senhor e buscar os benefícios que Ele pode conceder. Neste caso, o coração busca ao Senhor.

E isto é adoração: um coração que aprecia o Senhor e O busca como o Tesouro acima de todos os outros tesouros.

Para concluir, vamos relacionar estes três pontos de Lucas 12:33-34 ao ato de cultuar a Deus com nossas "ofertas" quando o povo de Deus se reúne em adoração. Este momento e este ato serão adoração para você independente da quantia, desde a moedinha da viúva aos milhões do milionário, se ao ofertar você disser em seu coração: "Deus, eu confio em Ti como generoso Pastor, Pai e Rei, então, eu não preciso temer caso eu tenha menos dinheiro para mim mesmo quando eu ofertar para suprir as necessidades do próximo. Portanto, eu resisto à grande pressão em nossa sociedade de acumular mais e mais, e me rendo ao impulso de simplificar por amor ao próximo. Eu acumulo tesouros nos céus, e não na terra, para que minha alegria em Ti, meu Deus, seja maximizada para sempre. Com esta oferta, eu declaro que meu tesouro está nos céus, por isso meu coração busca a Ti, meu Deus."



©2016 Desiring God Foundation. 
www.desiringGod.org (website em inglês com alguns recursos em português).
http://cdn.desiringgod.org/pdf/piper_tabletalk_article.pdf (texto original em inglês).

 

Traduzido com permissão por Rachel Machado Soares Beere. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Pais, Exijam Obediência de Seus Filhos.



John Piper


Eu escrevo este artigo para insistir com os pais cristãos que exijam obediência de seus filhos. Eu fui impelido a escrever este artigo ao observar crianças que ignoram os pedidos de seus pais sem sofrer nenhuma consequência. Os pais pedem a seus filhos duas ou três vezes para que eles se sentem, ou parem de fazer alguma coisa, ou venham até eles, ou se dirijam a algum lugar, e depois da terceira desobediência, os pais oferecem um suborno para criança em troca da obediência. Às vezes, a estratégia do suborno funciona na obtenção do comportamento desejado; às vezes não.

Na semana passada eu testemunhei duas coisas que me induziram a escrever este artigo. Uma delas foi a morte de Andy Lopes em Santa Rosa na Califórnia, um menino de 13 anos de idade que foi baleado por um policial que pensou que o garoto estava prestes a atirar com uma arma de fogo. A arma do menino era de brinquedo. O que torna este episódio relevante é que o policial disse que pediu ao menino duas vezes para abaixar a arma. Ao invés de seguir as orientações das autoridades, o menino apontou a arma em direção aos policiais. E os policiais atiraram nele.

Eu não conheço todos os detalhes deste caso, ou se o menino chegou a escutar a ordem dos policiais. Então, eu não posso afirmar que Andy era indisciplinado. Por isso, este artigo não foi escrito para criticar Andy Lopes. Estou pressupondo uma situação hipotética. Será que ele ouviu a ordem da polícia e simplesmente ignorou o que eles disseram? Se isto realmente aconteceu, ele pagou o preço com a própria vida. Tal é o preço que foi pago pela desobediência à autoridade estabelecida.

Uma tragédia prestes a acontecer

Eu presenciei um cenário semelhante durante um voo na semana passada. Eu assisti uma mãe preparando seu filho para ser baleado.

Eu estava assentado atrás desta mãe e de seu filho de aproximadamente sete anos de idade. O menino estava brincando com o seu tablet. A aeromoça anunciou que todos os equipamentos eletrônicos deveriam ser desligados para a decolagem. O garoto não desligou o seu tablet. A mãe não exigiu que ele o desligasse. A aeromoça se aproximou, falou que ele deveria desligar o tablet e continuou andando pelo corredor. O garoto ainda assim não o desligou. E a mãe não exigiu que ele o desligasse.

Uma última vez a aeromoça se aproximou e falou que o garoto deveria entregar o equipamento para sua mãe. Então ele finalmente desligou o tablet. Quando aeromoça assentou-se para a decolagem, o garoto ligou o equipamento novamente e continuou jogando durante toda a decolagem. A mãe não fez absolutamente nada. Eu pensei comigo mesmo: "Ela está treinando o filho para ser baleado pela polícia."

Resgatados da insensatez na educação de filhos


Eu posso entender a resistência e a preguiça de pais que são incrédulos. Eu enquadro este comportamento na categoria bíblica dos que são espiritualmente cegos. Mas a negligência dos pais e mães cristãos me deixa perplexo.

Qual é o motivo do fracasso em exigir e em receber obediência? Não sei ao certo. Mas é possível que estas próximas observações sejam capazes de ajudar alguns pais e mães a serem resgatados da insensatez da criação de filhos sem regras. 

1 - Exigir obediência dos filhos está implícito no mandamento bíblico de que os filhos obedeçam aos seus pais. 

“Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor, pois isso é justo” (Efésios 6:1). Não faz sentido algum que Deus exija que os filhos obedeçam aos pais sem exigir que os pais exijam obediência de seus filhos. Faz parte da nossa obrigação como pais ensinar aos nossos filhos a glória de um espírito que se submete alegremente às autoridades que foram constituídas por Deus. Os pais representam Deus para os filhos pequenos, e é um perigo mortal treinar os filhos a ignorar os mandamentos de Deus.  

2 - Obediência é um elemento do evangelho, da nova-aliança. 

Obediência não é apenas um elemento da “lei”. É um elemento do evangelho. Paulo disse que o propósito de seu evangelho era “chamar dentre todas as nações um povo para a obediência que vem pela fé” (Romanos 1:5). Ele disse: “Não me atrevo a falar de nada, exceto daquilo que Cristo realizou por meu intermédio em palavra e em ação, a fim de levar os gentios a obedecerem a Deus” (Romanos 15:18).


O objetivo de Paulo era de dominar “todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo” (2 Coríntios 10:5). Ele exigia obediência das igrejas: “Se alguém desobedecer ao que dizemos nesta carta, marquem-no e não se associem com ele” (2 Tessalonicenses 3:14).


Pais que não ensinam seus filhos a obedecerem às autoridades constituídas por Deus estão preparando seus filhos para uma vida fora de sintonia com a Palavra de Deus – uma vida fora de sintonia com o evangelho que os próprios pais desejam enfatizar.


3 – Exigir obediência dos filhos é possível.


É lamentável observar os pais agirem como se não pudessem fazer absolutamente nada diante de filhos desobedientes. Deus exige que os filhos obedeçam porque é possível que os pais exijam obediência. Crianças pequenas, com menos de um ano de idade, podem aprender com eficácia que não devem tocar morder, puxar, empurrar, cuspir ou gritar. Você é maior do que seus filhos. Tire vantagem do seu tamanho a fim de resgatá-los para uma vida de alegria, e não para sentenciá-los a uma vida de egoísmo. 


4 – Exigir obediência deve ser praticado em casa nas pequenas coisas para que seja possível em público nas coisas de maior importância.


Uma explicação para o fato de que os filhos não consigam ser controlados em público é que eles não foram ensinados a obedecer dentro de casa. Uma razão para isto é que muitas das situações dentro de casa parecem não ser importantes o bastante para se travar uma guerra. É mais fácil fazermos algo nós mesmos do que gastarmos tempo e energia para lidarmos com um filho que se recusa a fazer alguma coisa. Mas esta atitude está apenas treinando os filhos para assimilarem a obediência como comportamento opcional em qualquer que seja a situação. A consistência em exigir obediência dentro de casa irá ajudar seus filhos a serem agradáveis em público.


5 – É trabalhoso exigir obediência, mas vale a pena.


Se você fala para seu filho ficar na cama e ele se levanta mesmo assim, é bem mais fácil falar para ele voltar para cama do que levantar-se e lidar com a desobediência. Os pais estão sempre cansados. Eu entendo bem essa situação. Por mais de 40 anos, eu tive filhos com idade inferior a 18 anos morando conosco. Exigir obediência requer energia física e mental. É bem mais fácil deixar os filhos fazerem o que quiserem.


O resultado? Filhos impossíveis de serem controlados quando for necessário. Eles aprenderam todos os atalhos. Mamãe é incapaz e o papai é fácil de enganar. Eles sabem quando você está prestes a explodir. Então, eles ignoram suas palavras até o limite. Isto produz frutos amargos para todos os envolvidos. Mas o trabalho árduo de agir com consistência imediata em reação a cada desobediência produz um doce fruto para os pais, para os filhos e para todas as pessoas.


6 – Você pode interromper o círculo vicioso que perdura por várias gerações.


Uma das razões pelas quais os pais não exigem disciplina é que eles nunca viram um exemplo de como fazer isso. Eles são frutos de lares que apresentavam dois modos de tratamento: a passividade e a raiva. Eles sabem que não desejam criar os filhos dominados pela raiva. A única alternativa que eles conhecem é a passividade. Eis a boa notícia: isso pode mudar. Os pais podem aprender, através da Bíblia e de pessoas cheias de sabedoria, tudo o que é possível, tudo que nos é exigido, tudo o que é sábio e também como agir na criação de filhos com um espírito de paciência, firmeza, amor e alicerçados no evangelho. 


7 – A criação de filhos firmada na graça transforma a complacência dos filhos em desejo de obedecer com alegria.


Os filhos precisam obedecer antes mesmo de entenderem a obediência que vem pela fé. Quando a fé se tornar realidade para eles, a obediência que foi aprendida através do temor, da recompensa e do respeito se transformará em uma expressão natural da fé. Deixar de exigir obediência antes da existência da fé é uma decisão insensata. Deixar de exigir obediência não é um ato amoroso, nem que visa o longo prazo. Isso abre brechas para hábitos de desobediência que não devem ser apenas controlados, mas eliminados.


8 – Filhos cujos pais exigem obediência são mais felizes.


A criação de filhos sem regras não produz filhos humildes, nem cheios de graça. Ela produz filhos indisciplinados. Também são filhos que não são felizes, cuja presença é desagradável. Eles são mimados e insolentes. A “liberdade” que lhes é concedida não é uma bênção para eles, nem para as outras pessoas. Essas crianças têm a mesma liberdade que tem um barco sem o leme. Elas são vítimas de seus caprichos. Mais cedo ou mais tarde estes caprichos lhes serão negados. Isso é uma receita para tragédia. Ou até mesmo para um encontro fatal com a polícia.



9 – Exigir obediência não é o mesmo que exigir perfeição.


Como os pais representam Deus para os filhos, especialmente antes que eles tenham a capacidade de conhecer Deus através da fé no evangelho, nós mostramos a eles tanto a justiça como a misericórdia. Nem toda desobediência é punida. Algumas são identificadas, reprovadas e deixadas para trás. Não existe uma fórmula precisa. Os filhos precisam aprender através de nosso estilo de criação que o Deus dos evangelhos é um fogo consumidor (Hebreus 12:7, 29) e que Ele é paciente e misericordioso (1 Timóteo 1:16). Em ambas as situações, disciplina ou paciência, o objetivo é a obediência imediata, feliz e total. Isto é o que o conhecimento de Deus em Cristo produz.


Pais, vocês podem fazer isto. Eu passei mais do que sessenta por cento da duração de minha vida fazendo isso. Deus concede sua graça para a realização desta tarefa, e você será ricamente recompensado. 


©2016 Desiring God Foundation. 
www.desiringGod.org (website em inglês com alguns recursos em português).
http://www.desiringgod.org/articles/parents-require-obedience-of-your-children (texto original em inglês).

 
Traduzido com permissão por Rachel Machado Soares Beere. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O Senhor Servo



John Piper

"... para mostrar, nas eras que hão de vir, a incomparável riqueza de sua graça, demonstrada em sua bondade para conosco em Cristo Jesus." (Efésios 2:7 NVI)

Para mim, a imagem bíblica mais surpreendente da segunda vinda de Cristo está em Lucas 12:35-37,  que mostra um senhor voltando de um banquete de casamento: 

"Estejam prontos para servir, e conservem acesas as suas candeias, como aqueles que esperam seu senhor voltar de um banquete de casamento; para que, quando ele chegar e bater, possam abrir-lhe a porta imediatamente. Felizes os servos cujo senhor os encontrar vigiando, quando voltar. Eu lhes afirmo que ele se vestirá para servir, fará que se reclinem à mesa, e virá servi-los" (NVI).

Para que fique bem claro, nós somos chamados servos e não há dúvida de que isto significa que devemos fazer exatamente o que nos é ordenado. Mas a maravilha dessa imagem é que o "senhor" insiste em "servir" mesmo na era futura quando Ele aparecerá em toda Sua glória "com o seus anjos poderosos, em meio a chamas flamejantes" (2 Tessalonicenses 1:7-8 NVI). Por quê?

Porque um aspecto primordial da glória de Deus é a abundância da graça que se manifesta através da bondade que transborda sobre as pessoas em suas necessidades. Portanto, Ele tem o propósito de "mostrar, nas eras que hão de vir, a incomparável riqueza de sua graça, demonstrada em sua bondade para conosco em Cristo Jesus" (Efésios 2:7 NVI).

O que é a grandeza do nosso Deus? O que é a singularidade Dele neste mundo? Isaías responde: "Desde os tempos antigos ninguém ouviu, nenhum ouvido percebeu, e olho nenhum viu outro Deus, além de ti, que trabalha para aqueles que nele esperam" (Isaías 64:4 NVI).

By John Piper. ©2016 Desiring God Foundation.
www.desiringGod.org (website em inglês com alguns recursos em português).
http://www.desiringgod.org/articles/the-master-servant (texto original em inglês).

Traduzido com permissão por Neyzimar Ferreira Lavalley.